“Se for bem preservado, o acervo da TV pode ser fonte de receita no futuro não tão distante, ou mesmo daqui há 30 anos”, diz Julio Cesar Fernandes, pesquisador que defendeu a dissertação “A memória televisiva como produto cultural: um estudo de caso das telenovelas no Canal Viva”, no curso de pós-graduação em Comunicação Social da Universidade Metodista de São Paulo. O trabalho se propôs a estudar a memória televisiva como parte da memória social e coletiva através da análise da memória recuperada e construída pelo Canal Viva, que exibe, essencialmente, conteúdo do acervo da TV Globo. Segundo Fernandes, que é coordenador de operações do jornalismo da TV Globo, o produto de acervo ganha novas características quando é reexibido, inclusive comerciais, por atingir, muitas vezes, um público distinto daquele impactado na primeira veiculação do conteúdo.
Nostalgia
A pesquisa foi dividida em duas etapas. A primeira consistiu em uma pesquisa bibliográfica, em que são articulados conceitos de cultura, memória, identidade e imaginário. Já a segunda etapa foi o estudo de caso propriamente dito dividido em três etapas: pesquisa documental; entrevistas guiadas, realizadas com profissionais da equipe do Canal Viva; e um grupo focal, com telespectadores do Canal Viva, que relataram suas experiências a respeito de hábitos de televisão, telenovelas e o Canal Viva.
Segundo o pesquisador, as entrevistas com o grupo focal mostraram que a nostalgia é o que guia a maior parte da audiência do canal de acervo, embora a maior parte desta audiência seja formada por pessoas que não eram nascidas ou eram crianças/adolescentes quando o conteúdo foi exibido originalmente. “Os que eram crianças têm uma memória afetiva das novelas. Os que ainda não haviam nascido, ainda assim, se sentem inseridos na realidade retratada naquele conteúdo. É uma nostalgia do imaginário coletivo”, explica.
A pesquisa traz uma reflexão sobre a memória televisiva e a importância para a sociedade da sua preservação. “Ao ver as questões tratadas em ‘Roque Santeiro’, como a corrupção, por exemplo, o telespectador percebe como algumas questões evoluíram e outras permaneceram iguais”, diz Fernandes.
“O Brasil é um país carente de preservação de sua memória em geral, inclusive a televisiva. Há iniciativas privadas para que programas de televisão sejam arquivados e devidamente preservados, entretanto pouco eficazes em comparação ao volume de material que é produzido diariamente por todas as emissoras em território nacional”, completa o pesquisador.
Fernando Lauterjung – Tela Viva -News