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“Divisão compulsória do Grupo Clarín é ilegal”

“Divisão compulsória do Grupo Clarín é ilegal”

Martín Etchevers, gerente de relações institucionais do Grupo Clarín

Conglomerado de mídia reafirma que medidas aplicadas pela Casa Rosada têm objetivo de calar vozes discordantes

A decisão do governo argentino de desmembrar compulsoriamente o maior conglomerado de mídia do país, o Grupo Clarín, provocou mais estragos na já desgastada relação da Casa Rosada com a imprensa. Na quarta-feira, a Administração Federal de Serviços Audiovisuais (AFSCA), entidade encarregada da aplicação da Lei de Mídia, comandada pelo kirchnerista Martín Sabbatella, anunciou que, em razão de supostas “irregularidades” do Clarín no plano de adequação que apresentou em novembro, imporia de forma compulsória uma divisão do conglomerado e o leilão dos canais de TV e estações de rádio da holding multimídia.

O governo também determinará para quais empresários as diversas partes serão vendidas. A decisão cancelou a possibilidade de adequação voluntária do Clarín à lei. Em entrevista ao Estado, o gerente de relações institucionais do grupo, Martín Etchevers, afirmou que “essa é mais uma prova que o governo concebeu a Lei de Mídia para aplicá-la contra as vozes críticas”. Segundo o executivo, a nova medida da Casa Rosada coincide com “um momento de problemas econômicos e sociais que o governo tenta esconder”. A seguir, a entrevista com Etchevers:

O governo alega que a divisão planejada pelo Clarín tinha uma série de irregularidades…
O procedimento de aplicar divisão compulsória do Grupo Clarín é ilegal, já que o governo nem sequer nos permitiu o direito de defesa. Aliás, dentro da AFSCA, nem os poucos diretores que pertencem à oposição puderam ler antes da divulgação o relatório com as acusações ao Clarín. As acusações de Sabbatella são disparatadas. Ele mistura alhos com bugalhos, sustenta que encontraram vínculos de sócios das diversas partes nas quais o Clarín se dividiria. Mas não apresenta as provas disso. Além disso, esse é o plano que representantes do governo haviam aprovado na assembleia do Clarín, meses atrás. De quebra, enquanto quer aplicar a divisão compulsória do grupo, (o governo) continua sem tratar o caso da Telefónica, entre outros grupos de empresas de mídia controlados por amigos.

Qual serão as ações que o Grupo Clarín tomará?
Vamos ter de recorrer a instâncias judiciárias que os advogados ainda estão analisando.

Por qual motivo o governo faz essa ofensiva contra o Grupo Clarín desde 2008?
O Clarín é um dos vários meios de comunicação que os Kirchner não conseguiram colonizar. O governo deduziu que a imprensa independente era uma fronteira à sua intenção de perpetuar-se no poder. Os meios que a presidente Cristina (Kirchner) não conseguiu cooptar são os que divulgam os casos de corrupção, a manipulação dos índices de inflação, entre outras notícias. A lógica do governo é: “Se existem meios que não podemos colonizar, vamos destruí-los”.

O sr. acredita que essa ‘guerra’ ficará mais intensa no último ano e meio que resta de governo à presidente Cristina?
Caso continuem se multiplicando fatos como os dessa última semana, podemos considerar que o governo intensificará os conflitos com o Clarín.

A Argentina estaria indo na direção do modelo que o governo de Nicolás Maduro aplica na Venezuela para suprimir a mídia não alinhada?
O modelo político que o governo Kirchner aplica com a mídia é muito similar ao da Venezuela, de desarticular as vozes independentes. No entanto, até agora, a situação na Argentina ainda não chegou ao ponto da Venezuela, porque existem no país alguns contrapesos institucionais, apesar de alguns setores do Judiciário terem sido dominados pelo governo. No entanto, alguns setores conseguiram resistir a essa colonização que a presidente Cristina quer impor.

Desde a volta da democracia, o jornalismo argentino teve outras crises fortes nas relações com os governos?
Desde 1983, quando a Argentina voltou à democracia – e isso o dizem as diversas entidades de jornalismo no país –, esse é o pior momento da relação do poder político com a mídia. Com o passar do tempo, além da estigmatização dos jornalistas independentes pela Casa Rosada, de leis que tentam restringir a ação da mídia, o governo também implementou medidas como a suspensão da publicidade oficial para meios de comunicação que não agem tal como a presidente deseja. Ou medidas mais complexas como – tal como ocorreu no ano passado – a implementação do “corralito” publicitário: proibição às empresas de eletrodomésticos e supermercados de anunciar nos jornais.

A oposição afirma que o governo Kirchner criou um “amigopólio” de comunicação…
A maior parte dos meios de comunicação atualmente são controlados – de forma direta ou indireta – pelo kirchnerismo. Além disso, por intermédio da estatização das transmissões dos jogos de futebol, somente divulgam publicidade do governo, que também usam para atacar aqueles que não pensam como o kirchnerismo. E o sistema de TV digital criado pelo governo só conta com canais aliados. Mas o peso desse “amigopólio” é em número de empresas. No entanto, eles não conseguiram a audiência que queriam. Aliás, para tentar camuflar seu baixo sucesso de público, o governo acaba de criar seu próprio sistema de medição de audiência…

O Estado de S.Paulo
Ariel Palacios

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