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Teles tentam provar que 5G pode conviver com canais de TV

Teles tentam provar que 5G pode conviver com canais de TV

Claro, Vivo, TIM e Oi contrataram o CPQD para coordenar os trabalhos no Rio de Janeiro

Valor Econômico/Por Ivone Santana — De São Paulo
Data: 29/10/2019

As quatro principais operadoras de telecomunicações do Brasil – Telefônica Vivo, Claro, TIM e Oi – e o Centro de Pesquisa e Desenvolvimento (CPQD) devem finalizar neste semana, no Rio de Janeiro, “testes de convivência” entre os serviços móveis de quinta geração (5G) e os sinais de TV aberta transmitidos via satélite e captados por antenas parabólicas.

As teles tentam provar que é possível mitigar a interferência entre os dois serviços, colocando filtros e adaptadores, com custo estimado em R$ 460 milhões, para que convivam com os radiodifusores na mesma faixa de frequência. A solução é menos onerosa do que os R$ 2,72 bilhões estimados pelas emissoras de TV, que propõem a mudança dos canais para outra faixa, como solução do problema. Em tese, esse custo, antes calculado em R$ 2,9 bilhões, mas depois revisto, seria incorporado ao preço das licenças de frequência que as operadoras deverão comprar em leilão previsto para o segundo semestre de 2020. As teles precisam do espectro para as redes 5G.

Nos últimos dois anos, a Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel) fez “testes de convivência” envolvendo toda a cadeia de valor. Em julho, divulgou os resultados que mostraram a interferência de 5G no sinal das parabólicas. A agência não participa dos testes atuais feitos pelas teles, embora seus técnicos tenham colaborado com a especificação e configuração dos equipamentos 5G. A expectativa de fonte ligada ao órgão é que as conclusões sejam exibidas na consulta pública que discutirá as regras do leilão para venda das frequências de 5G.

Mas a consulta pública – fase em que a sociedade pode fazer sugestões – depende da aprovação do edital pelo conselho diretor da Anatel. O diretor Vicente Aquino já apresentou seu relatório com a proposta de edital. Mas no dia 18 de outubro, o diretor Emmanoel Campelo pediu vista, adiando a decisão do colegiado. A próxima reunião do conselho é em 7 de novembro. Cabe a Campelo decidir se inclui o tema na pauta.

“Os novos testes […] estão em andamento e os primeiros resultados obtidos são promissores”, informou o SindiTelebrasil, sindicato que representa as operadoras. “Os filtros utilizados em antenas parabólicas estão apresentando desempenho positivo nos testes de laboratório, coordenados pela Fundação CPQD, que agora está complementando a avaliação com testes de campo.” O relatório final deve ser concluído e divulgado em novembro.

O Valor apurou que já foi realizada uma semana de testes em laboratório e mais duas em campo, com participação da Nokia, uma das fabricantes globais de equipamentos para 5G (as outras são Ericsson e Huawei). A Claro estaria liderando a experiência.

A transmissão dos canais de TV aberta usa uma faixa do satélite conhecida como banda C, ou TVRO (Television Receive-Only). Existem no país 22,1 milhões de residências com receptores desse tipo. E são justamente esses domicílios que estão no caminho de 5G.

A TVRO, que usa a banda C, é vizinha de 5G em uma das faixas escolhidas pela Anatel para a nova tecnologia, que vai de 3,5 gigahertz (GHz) a 3,6 GHz. A banda C estendida vai de 3,625 GHz a 3,7 GHz. Já a banda C natural, de 3,7 GHz a 4,2 GHz, explica Wender Almeida de Souza, engenheiro e assessor técnico da Associação Brasileira de Rádio e Televisão (Abratel). A interferência vem da proximidade entre as frequências.

 

Existem 22,1 milhões de residências no país que recebem canais de TV aberta com o uso de antenas parabólicas

 

O engenheiro explica que na década de 70 as emissoras de TV começaram a usar a banda C para transmitir a programação para suas afiliadas e demais retransmissoras (o serviço profissional, no jargão técnico). Como o sinal não é codificado, a população pegou carona no satélite para receber a TV aberta com o uso das parabólicas. O recurso se popularizou e o sinal passou a ser também de uso doméstico.

A proposta das emissoras é retirar o serviço doméstico da banda C e levá-lo para a banda Ku. Depois, distribuir o serviço profissional, que é entre as emissoras e sua rede, em outra posição dentro da C (3,9 GHz a 4,2 GHz). Nesse caso, não haveria problema entre os “vizinhos”. Souza diz que não há fato novo que justifique o atual teste e que as emissoras só atuam agora como observadores.

O engenheiro diz que para receber o sinal do satélite, o consumidor precisa de um kit composto por antena, receptor e um dispositivo conhecido como LNBF, que fica acoplado à parabólica. Esse conjunto custa entre R$ 400 e R$ 450 para uso doméstico. Em grande volume, sairia por R$ 314 cada.

Já no caso do uso profissional da banda C pelas emissoras, o conjunto custa mais de R$ 10 mil, por ser mais potente. Ocorre que o número de emissoras é pequeno. Então, pelo valor, total compensaria mantê-los na banda C. Mas os usuários domésticos, embora tenham custo menor, são numerosos – 11,2 milhões que pertencem ao Cadastro Único para Programas Sociais. A Abratel estima que só 8,6 milhões de lares precisarão de kits, o que perfaz os R$ 2,72 bilhões.

A entidade toma por base a distribuição de kits da transferência de emissoras de TV aberta da faixa de 700 MHz, vendida às teles para uso de 4G em 2014. As teles tiveram de arcar com o custo de R$ 3,6 bilhões para a desocupação da faixa e digitalização dos canais. Mas só 77,3% do público-alvo retirou os kits. Sobraram R$ 700 milhões.

No caso de 5G, a Abratel propõe que todos os usuários domésticos devam ser levados à banda Ku. E é isso o que as teles tentam evitar. Elas buscam mitigar a interferência dentro da mesma banda ou só realocar os casos mais críticos.

Os radiodifusores opinam que essa solução seria provisória, pois há questões técnicas não resolvidas. Além disso, dizem que as teles não consideram 5G para a zona rural e, no futuro, a banda C terá de ser desocupada para expansão de 5G.

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