Tema central da Futurecom este ano, o uso de Big Data por parte das operadoras passa por desafios envolvendo questões incluídas no marco civil da internet, como privacidade e neutralidade de rede. Segundo Antônio Carlos Valente, presidente da Telefônica, a operadora chegou a abortar uma iniciativa tomada algum tempo atrás, depois de notificada pela Secretaria Nacional de Defesa do Consumidor para explicar as implicações que haveria no sigilo das informações e seu uso posterior.
Hoje a companhia tem na aceleradora Wayra a acelerada Reglare, sua empresa focada em Big Data, que trabalha com aplicações como melhoria de atuação na central de clientes e, para o público externo, voltadas à administração pública municipal, como a identificação do impacto de obstrução nas vias. “O marco civil limitou as informações da operadora sobre o comportamento do usuário. Um dos desafios a partir de agora é como ter aplicações benéficas para a sociedade convivendo com esse texto legal”, acrescentou Valente.
Ele lembrou o impacto da legislação no cenário da internet das coisas, que tende a ser a grande geradora de tráfego nos próximos anos, na medida em que as relações humanas tenderão a se estabilizar. Um exemplo é o desenvolvimento do carro conectado, sem condutor e comandado a distância. “Em algumas situações será necessário selecionar quem passa ou não por um cruzamento, mas isso vai estar competindo com informações de outras relevâncias”, ilustrou. “Temos de reconhecer que ainda não somos capazes de pensar em todas as alternativas e encontrar caminhos flexíveis que não impeçam as oportunidades de chegar à sociedade.”
Já Rodrigo Abreu, presidente da TIM Brasil, ressaltou a oportunidade de uso da tecnologia para otimizar a operação e permitir melhoria no provimento de serviços e habilitação de ofertas.
A questão, diz ele, é que essa possibilidade indica a necessidade de mudança do que é possível ou não fazer pelo ângulo regulatório. “A Amazon consegue ter cookies instalados nas máquinas para analisar tudo o que passa por seus servidores relacionado a anúncios e compras. Mas nossa indústria só agora consegue acessar aparelhos para medir a qualidade de experiência do usuário”, comparou. “Saber o que o usuário utiliza de maneira mais precisa permite reagir mais rapidamente, com mais integração entre redes, serviços e atendimento, entrando em cadeia de produção que parte para a rede e desemboca em novas ofertas de produtos e serviços.”
Hoje, segundo Abreu, o Big Data já permite otimizar planejamento de rede e investimentos em ativos fixos, com estudo contínuo de mais de 30 bilhões de CDRs (registros de chamadas, na sigla em inglês). Mas oferecer serviços mais integrados com base em conhecimento do usuário passa por discussão da regulamentação. “A questão regulatória é crítica porque pode determinar o futuro com impacto indesejado e a legislação muito prescritiva pode ter prazo de validade curto. Mudar não é fácil”, avaliou, apontando como exemplo a própria Lei Geral das Telecomunicações baseada em cobre e voz, itens que se tornaram secundários em relação a aspectos como fibras e dados.
O executivo observou que o princípio da neutralidade da rede coloca em jogo o desequilíbrio entre operadoras e fornecedores de conteúdo, as OTTs como Google, Facebook, Netflix ou YouTube, que não sofrem limitação. “O conhecimento do usuário, do tráfego e das aplicações está restrito a uma parte da cadeia, embora seja outra que a faz funcionar”, alega.
Para o conselheiro da Anatel Jarbas Valente, a discussão aponta que o setor terá de criar novos modelos de negócios para viabilizar investimentos em infraestrutura. “Um ponto a se discutir em relação a neutralidade da rede é saber até que ponto pode existir trade off (trocas de vantagens) com os novos modelos de aplicações.”
Valor Econômico
Por Martha Funke