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Para jornalistas investigativos, mídia não pode se intimidar após casos Manning e Snowden

Para jornalistas investigativos, mídia não pode se intimidar após casos Manning e Snowden

Não é novidade na história do jornalismo a censura imposta a veículos de comunicação, principalmente, quando estes revelam segredos que envolvem o poder público. O primeiro jornal brasileiro, Correio Braziliense, era impresso em Londres para fugir da repressão. Desde o Brasil colônia, o espectro de controle permanece por meio de governos civis e militares e, hoje, mesmo com direitos constitucionais, a imprensa não pode declarar total liberdade.

Recentemente, a mídia passou a ser motivo de preocupação ainda maior para o governo dos EUA, quando o soldado Bradley Manning divulgou documento secretos ao Wikileaks e o ex-funcionário da NSA, Edward Snowden, vazou detalhes sobre o esquema de espionagem norte-americano.

No entanto, a notícia sobre o programa Prism de espionagem não rendeu só o furo. O britânico The Guardian diz ter sido coagido a exterminar dados secretos em seu poder. O editor Alan Rusbridger declarou que o governo ameaçou processar a publicação, caso não destruísse ou entregasse os documentos.

Essa não foi a única represália: David Miranda, companheiro do jornalista Glenn Greenwald, responsável por divulgar a espionagem, foi detido durante nove horas no aeroporto de Londres. Ele teve equipamentos eletrônicos confiscados pela polícia, incluindo um laptop, telefone celular, câmera fotográfica, cartões de memória, DVDs e consoles de videogame.

Tais atos colocam em xeque o jornalismo investigativo e, consequentemente, afetam o acesso à informação. “O ato de censura contra um dos veículos mais importantes do mundo é inadmissível”, diz Natalia Viana, diretora da agência Pública, sobre o caso do diário britânico. “É um ato de coibição ao jornalismo, mas tem um efeito contrário, pois os governos estão mais desacreditados com esse tipo de ação.”

O repórter Alan Rodrigues, da revista IstoÉ, um dos responsáveis pela matéria que denunciou um suposto cartel em obras do metrô, afirma que o Estado e a mídia não podem aceitar a censura. “Os documentos devem ter 100% de transparência. O ex-agente da CIA, Edward Snowden, alega que deu início às investigações porque houve uma ‘invasão’ na vida das pessoas. Ele fez um papel brilhante para o mundo ao revelar essa documentação.”

Persistência

Para Helio Gurovitz, diretor de redação da Época, revista que publicou duas matérias com a colaboração de Gleen Greenwald, a tentativa de dificultar o trabalho da imprensa não é um fato novo. Porém, há duas novidades nos dias de hoje: a gigantesca quantidade de informações geradas em formato digital por governos e outros grupos de interesse; e a maior facilidade na circulação dessas informações.

“Os governos se sentem mais vulneráveis ao trabalho dos jornalistas investigativos. É isso, no fundo, que revelam todas essas represálias”, defende o jornalista. “Elas são reações defensivas.” Segundo ele, as nações precisam compreender essa dinâmica e reforçar sua crença na liberdade de expressão, na preservação do sigilo das fontes e na proteção daqueles que passam informações sigilosas à imprensa em nome do interesse público.

“Se houver essa compreensão e se o trabalho jornalístico for realizado de modo profissional, como Época e tantos outros veículos da imprensa têm feito, a sociedade só tem a ganhar”, garante Gurovitz.

Criticidade

Celso Schröder, presidente da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas), aponta que é preciso que o jornalista investigativo tome cuidado com dossiês reproduzidos sem questionamento, favorecendo interesses próprios.

“Acho que nós, jornalistas, temos que reagir contra os Estados cerceadores, mas também contra uma certa prática que começa a se instalar nos nossos cotidianos — que também acaba inviabilizando ou inibindo e, muitas vezes, envergonhando o jornalismo investigativo —, que é revestir denúncias e interesses privados com o tom da investigação, que nem sempre é feita”, alerta.

De acordo com Claudio Tognolli, diretor da Abraji (Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo), os profissionais devem prezar pelo rigor da apuração, instrumento essencial do profissional de imprensa. “O jornalismo investigativo, em estado quimicamente puro, ocorre quando o jornalista usa o documento produzido por autoridade como um ponto de partida e não como um ponto de chegada.”

O diretor destaca que a publicação de documentos é necessária e remete ao interesse público. No entanto, muitas vezes os jornalistas não apuram e apenas subscrevem informações. “O jornalismo investigativo mundial lentamente se convenceu a pegar papéis feitos por autoridades e publicar.”

Continuação

Na próxima quinta-feira (12/9), IMPRENSA publica a segunda parte da reportagem sobre o jornalismo investigativo após os casos Manning e Snowden. O texto vai abordar os desafios da prática no Brasil.

Fonte: Portal Imprensa -Últimas
Alana Rodrigues e Edson Caldas

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