Data:16/11/2021
Veículo: LabsNews
Dia desses a Samsung anunciou um novo tipo de memória, a LPDDR5X. Ela traz vantagens como consumir 20% menos energia sendo 30% mais rápida que o modelo anterior, e deverá ser usada em celulares e outros dispositivos conectados. Embora seja um negócio legal, é enfadonho. Porém, um detalhe chamou a atenção: de algum modo, a Samsung enfiou o termo “metaverso” no anúncio da memória LPDDR5X.
Menos de um mês atrás, você provavelmente nunca tinha ouvido falar desse termo – de verdade, se o Google Trends for indicativo de alguma coisa. Agora, já deve estar cansada de tanto ouvi-lo. Peço um pouco de paciência para aguentar mais esse texto. Que, não, não é uma tentativa de explicar o que é metaverso. A essa altura nem seus proponentes, como Facebook e Microsoft, sabem defini-lo com exatidão.
Quero refletir sobre o porquê dessa avalanche de promessas e anúncios envolvendo o metaverso. Não foi só a Samsung. Nike e GameStop, dois exemplos igualmente peculiares, também já embarcaram no bonde do metaverso. Empresas que já tinham alguma característica que vagamente lembra o conceito decididamente vago apresentado pelo Facebook, como Nvidia, Epic Games (de Fortnite), Roblox e Niantic, já estão sentados na janelinha do bonde. A Microsoft prometeu (ameaçou?) que no futuro trabalharemos nesse tal de metaverso.
Há dois caminhos para entender a obsessão do mercado com o metaverso. O primeiro deles compra pelo valor de face a promessa de Zuckerberg: que até o final da década, migraremos a maioria das experiências sociais – das mais modorrentas, como ficar rolando o feed do Instagram, àquelas empolgantes contra as quais a tecnologia ainda não rivaliza, como ir a um show musical – para um ambiente virtual, para o metaverso.
Se essa visão estiver correta, fica evidente o motivo de todas essas empresas estarem se antecipando ao metaverso. Trata-se de uma nova corrida do ouro. A última desse tipo foi a do celular moderno, do smartphone, no final dos anos 2000. Executivos da Microsoft e da BlackBerry, para ficar nos exemplos óbvios, riram do iPhone. Nem Microsoft, nem BlackBerry têm qualquer participação relevante no atual mercado trilionário de celulares.
Participar do metaverso, portanto, passa a ser uma necessidade. No caso do Facebook, uma necessidade existencial. O Facebook quer dominar o metaverso.
O maior ponto fraco do Facebook, hoje, é ser um parasita que depende de hospedeiros controlados por duas das suas principais rivais, Apple e Google. Os apps do Facebook só rodam no Android (Google) e no iOS (Apple). Mark Zuckerberg não quer correr o risco de, na próxima geração de plataformas globais, ver seus apps fora de uma delas só porque tinha uma galera usando eles para fazer qualquer bobagem, tipo traficar seres humanos.
A grande questão – esse é o segundo caminho para entender a obsessão do mercado com o metaverso – é que ninguém garante que o metaverso será, como profetizou Zuckerberg, “a próxima plataforma”, o substituto do celular, “uma internet corpórea onde você sente a experiência em vez de apenas olhar para ela”. O Facebook (ou a Meta) pode e vai investir montanhas de dinheiro para colar essa ideia e, ainda assim, não é certeza que tal visão se concretizará.
Faz no mínimo uns 40 anos que tecnocratas prometem que o ano da realidade virtual chegou. Pode ser que uma hora ele chegue, mas pode ser, também, que mergulhar num universo artificial seja algo tão hostil à humanidade que essa ideia jamais se concretize. O metaverso não é só realidade virtual, mas tem nessa tecnologia um componente fundamental. Em outras palavras, as chances de dar errado são tão boas quanto as de dar certo. Talvez até maiores.
Não é como se a história não tivesse exemplos de enormes fracassos por empresas com poderes e dinheiro quase infinitos. Em 2011, o Google fez um movimento digno do que o Facebook está fazendo agora com o metaverso: reorientou toda a empresa para uma rede social, o Google+, despejou toneladas de dólares naquilo e… não deu certo. Lembra das TVs 3D? Eu quase me esqueci delas, tamanha a relevância contemporânea da tecnologia que, em algum momento dos últimos 15 anos, a indústria apresentou como a evolução natural da TV, como uma inevitabilidade. Só que nós a evitamos. Era ruim demais. Não há dinheiro e marketing no mundo que compense um produto ruim, desconfortável e inútil.
Em escala menor, esses eventos são ainda mais comuns. Durante duas semanas no começo de 2021, só se falou em Clubhouse. Não se culpe se não lembrar de imediato que diabo é isso.
Ainda ouviremos falar muito de metaverso, nesse tom zuckerberguiano de que é algo determinado, “coloque seu capacete de realidade virtual e prepare-se para ver anúncios imersivos em 3D” e… Bem, não caia nessa.